O governo reeleito de Luiz Inácio Lula da Silva começou a enviar sinais ao mercado e ao setor produtivo dois dias após a vitória de 25 de outubro. Na terça-feira, 27 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo enviará ao Congresso um projeto de lei complementar para perseguir o centro da meta fiscal, e não apenas o piso da faixa de tolerância. “Vamos buscar o centro da meta”, disse. Para 2027, a meta é de superávit primário de 0,5% do PIB, ou R$ 73,2 bilhões.
A declaração veio depois do pregão de 26 de outubro, em que o Ibovespa caiu 13,88% e o dólar subiu 8,21%, fechando a R$ 5,40. Na noite de segunda-feira, Lula reuniu no Palácio da Alvorada Durigan e o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, para discutir política fiscal e a composição da equipe econômica.
O que a Fazenda sinalizou
Em entrevistas a O Globo e à Broadcast, Durigan disse que pretende ampliar o superávit primário de 2027, ainda sem novo valor definido. Segundo o Poder360, ele também indicou que parte das medidas de estímulo e de crédito subsidiado adotadas em 2026 poderá ser reduzida ou não renovada no próximo ano.
Os números do Orçamento mostram o tamanho do desafio:
- Meta de 2027: superávit de 0,5% do PIB (R$ 73,2 bilhões), com tolerância de 0,25 ponto, o que leva o piso a R$ 36,6 bilhões.
- Proposta orçamentária: superávit de R$ 83,4 bilhões após exclusões, como parte dos precatórios; considerando todos os gastos, o resultado cai para R$ 18,6 bilhões.
- Dívida bruta: 82,9% do PIB.
Durigan não detalhou o conteúdo, os mecanismos nem o prazo do projeto. Antes da eleição, em 23 de outubro, havia dito ao UOL que “não dá para querer vender para o mercado que no primeiro ano vai resolver esse problema porque não vai”. Ele afirmou ainda que o Tesouro recomprou títulos públicos para “dar uma estabilidade” e que o governo manterá a responsabilidade fiscal.
Quem pode comandar a economia
O comando da Fazenda no quarto mandato ainda não está definido. Segundo a Folha de S.Paulo, citada pelo InfoMoney, Lula sinalizou a aliados preferência pelo governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e a Fazenda é a principal possibilidade. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) também aparece entre os nomes citados. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse em 27 de outubro que não é cotado para a pasta e que está contente no cargo, cujo mandato vai até 2028.
Habitação no discurso e no plano
No discurso da vitória, em São Paulo, Lula falou de regulação das plataformas digitais e de cobrança de impostos das grandes empresas de tecnologia. Segundo o portal Portas, ele reafirmou o Minha Casa, Minha Vida, mas o programa ainda não tem meta formalizada para o novo mandato. Durante a campanha, em 12 de outubro, Lula havia prometido chegar a 3 milhões de moradias pelo programa.
O plano de governo registrado no TSE prevê para a habitação:
- Manutenção e ampliação do Minha Casa, Minha Vida em todas as faixas, com prioridade para a baixa renda.
- Compra assistida de imóveis prontos em situações específicas.
- Uso de imóveis e terrenos ociosos da União para regularização fundiária.
- Programa Periferia Viva, para urbanização de favelas, e expansão do Reforma Casa Brasil.
O que isso significa para o setor
Há uma tensão entre as duas mensagens. A promessa de ampliar o Minha Casa, Minha Vida depende de recursos do Orçamento e do FGTS, enquanto a Fazenda sinaliza aperto e revisão de subsídios. Ainda não está claro se a habitação será preservada nesse ajuste. Para quem trabalha com imóveis econômicos, o programa segue como prioridade declarada; para o segmento de média e alta renda, o fator decisivo será o efeito das medidas fiscais sobre os juros longos, que encarecem o financiamento.
Por outro lado, analistas ouvidos pela imprensa nos últimos dias dizem que uma equipe econômica crível e metas fiscais mais firmes são a condição para que os juros voltem a cair, o que beneficiaria todo o mercado imobiliário.
O que observar
- O texto do projeto de lei complementar sobre a meta fiscal e o prazo de envio ao Congresso.
- A escolha do ministro da Fazenda e a eventual troca no Planejamento.
- Quais subsídios e linhas de crédito de 2026 serão mantidos em 2027.
- A meta formal do Minha Casa, Minha Vida para o quarto mandato.
