A semana seguinte ao primeiro turno trouxe um sinal claro de que parte dos investidores brasileiros está disposta a voltar ao mercado imobiliário. O resultado das urnas, que colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Lula (PT) com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos, desencadeou uma reação em cadeia: queda dos juros longos, alta das ações de incorporadoras, valorização dos fundos imobiliários e expectativa de retomada de negócios em mercados como o litoral catarinense.
Os sinais do mercado financeiro
Em poucos dias, os indicadores ligados ao setor imobiliário mudaram de patamar:
- O Índice Imobiliário da B3 chegou a subir 13,5% em um único pregão.
- O IFIX, índice de fundos imobiliários, avançou 3,63% em dois dias.
- As taxas dos títulos públicos de longo prazo caíram até 0,74 ponto percentual, a maior queda desde 2008.
- Investidores estrangeiros colocaram R$ 12,6 bilhões na bolsa em quatro pregões.
Esses movimentos refletem a expectativa de parte do mercado de que uma mudança de governo traria uma política fiscal mais restritiva e, com ela, juros menores no futuro.
A lógica do investidor
Para o investidor de perfil conservador, a possibilidade de um governo alinhado à agenda liberal costuma vir associada a algumas expectativas: desburocratização, mais parcerias público-privadas, privatizações e menor intervenção no mercado. Na visão desse investidor, esse ambiente favorece a valorização de ativos reais, como imóveis.
Há também um componente de proteção. Em períodos de incerteza, muitas famílias preferem manter parte do patrimônio em imóveis, que não podem ser bloqueados, geram renda de aluguel e historicamente acompanham a inflação. Essa característica é frequentemente descrita como a busca do tijolo como porto seguro.
É importante destacar que essa é a leitura de uma parcela dos investidores. Outros analistas lembram que, independentemente de quem vencer, o próximo governo terá de enfrentar uma dívida pública acima de 80% do PIB e um Congresso fragmentado.
O que dizem as pesquisas
Os dados de comportamento do consumidor reforçam a disposição de comprar:
- A intenção de comprar imóvel chegou a 52% no segundo trimestre, o maior nível da série da Brain, iniciada em 2019.
- Pesquisa do Grupo OLX mostrou que, entre os compradores influenciados pela eleição, 27% decidiram acelerar a compra.
- As vendas de imóveis novos cresceram 5,4% no primeiro semestre, segundo a CBIC.
Ao mesmo tempo, a pesquisa da Loft mostrou que 48% dos brasileiros se sentem inseguros para assumir um financiamento longo, o que indica que parte da demanda está esperando a definição do cenário.
O efeito nas regiões
No litoral norte de Santa Catarina, especialistas esperam uma reação rápida do mercado caso a oposição vença o segundo turno. A região concentra investidores de outros estados e é um dos principais destinos de compra de imóveis de alto padrão no país.
As incorporadoras de médio e alto padrão também passaram a ser as preferidas dos bancos de investimento, com a expectativa de retomada de lançamentos em 2027.
Os cuidados necessários
Apesar do otimismo, especialistas recomendam cautela:
- O segundo turno ainda não foi decidido, e o mercado pode mudar de humor rapidamente.
- A queda dos juros futuros ainda não chegou às taxas de financiamento dos bancos.
- Promessas de campanha precisam ser transformadas em medidas concretas, aprovadas pelo Congresso.
- Comprar por impulso, apenas por expectativa política, pode levar a decisões ruins de preço e localização.
Imóvel como proteção, não como aposta
Para quem pensa em investir em imóveis neste momento, os especialistas costumam lembrar que o imóvel funciona melhor como proteção de patrimônio e geração de renda no longo prazo do que como aposta de curto prazo. Comprar esperando uma valorização rápida por causa do resultado eleitoral é arriscado: se o cenário não se confirmar, o investidor pode ficar com um ativo de baixa liquidez comprado acima do preço.
As decisões mais sólidas costumam considerar localização, demanda por aluguel na região, qualidade da construção, custo de manutenção e preço de compra em relação ao mercado. Esses fatores determinam o retorno do investimento por muitos anos, muito além de qualquer ciclo político.
O que observar
- O resultado do segundo turno, em 25 de outubro.
- O comportamento das taxas de financiamento nos bancos em novembro e dezembro.
- Os lançamentos previstos para o início de 2027.
- A procura por imóveis nas imobiliárias e nos portais nas semanas após a eleição.
