O primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, na segunda-feira, 26 de outubro, foi um dos piores da história recente da B3. O Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, a maior perda percentual desde março de 2020. O dólar comercial subiu 8,21% e terminou o dia a R$ 5,40, a maior alta diária desde janeiro de 1999. As ações de construtoras e incorporadoras estiveram entre as mais castigadas, com quedas acima de 40%.
Às 9h57, logo após a abertura, a queda de 10% do índice acionou o circuit breaker, que interrompeu as negociações por 30 minutos. Foi o primeiro acionamento desde o início da pandemia. Na mínima do dia, o Ibovespa chegou a 169.516 pontos, recuo de mais de 17%.
Por que o mercado reagiu assim
Analistas apontam um descompasso entre o que estava nos preços e o resultado das urnas. Pesquisas de segundo turno mostravam Flávio Bolsonaro (PL) ligeiramente à frente, e boa parte dos investidores havia montado posições apostando na vitória do candidato do PL, que prometia um ajuste fiscal mais duro. Depois do primeiro turno, por exemplo, os juros longos haviam caído mais de 1,3 ponto e as ações de construtoras tinham disparado.
Com o resultado, essa aposta foi desfeita de uma vez. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse em 27 de outubro que “o mercado estava apostando em uma vitória eleitoral de um determinado candidato” e que a reação foi “de posição”. Gabriel Magno, da AW Capital, afirmou à CNN Brasil que investidores passaram a esperar mais quatro anos de um governo que mantém um dos juros reais mais altos do mundo.
Juros futuros dispararam
A curva de juros, que serve de referência para o custo do crédito imobiliário de longo prazo, teve um salto incomum. Segundo dados de fechamento compilados pelo InfoMoney:
- DI para janeiro de 2028: 14,905%, alta de 2,08 pontos percentuais.
- DI para janeiro de 2029: 15,25%, alta de 2,655 pontos.
- DI para janeiro de 2031: 15,24%, alta de 2,665 pontos.
- DI para janeiro de 2035: 15,195%, alta de 2,54 pontos.
O risco-país também subiu. Para conter a disfunção, o Tesouro Nacional foi autorizado a recomprar títulos públicos e fez operações ainda na segunda-feira.
Construtoras e fundos imobiliários
O índice do setor imobiliário caiu 28,63% no dia, segundo a CNN Brasil. Entre as principais empresas, as perdas registradas pelo InfoMoney foram:
- Cyrela: queda de 44,81%.
- MRV&Co: queda de 42,53%.
- Tenda: queda de 26,38%.
- Direcional: queda de 24,05%.
- Cury: queda de 16,68%.
O Minha Casa, Minha Vida não blindou as ações. A MRV, muito exposta ao programa, caiu quase tanto quanto a Cyrela, voltada à média e alta renda. Segundo a Exame, Lavvi (41,2%), Eztec (42,4%) e Trisul (32%) também devolveram os ganhos acumulados desde o primeiro turno.
Os fundos imobiliários sentiram o golpe: o IFIX fechou em queda de 5,68%, depois de chegar a recuar mais de 8%, apagando a alta de cerca de 6% acumulada desde 4 de outubro, segundo o Seu Dinheiro.
Terça-feira de alívio parcial
Em 27 de outubro, o mercado ensaiou uma recuperação. Por volta das 11h30, o dólar caía 1,61%, a R$ 5,33, segundo a CNN Brasil, e os juros futuros devolviam parte da alta. O Ibovespa oscilava perto da estabilidade, e mais de 50 das 76 ações do índice operavam em alta no fim da manhã. O DI para janeiro de 2031 recuava para cerca de 14,8%.
O alívio coincidiu com as declarações de Durigan, que disse que o governo enviará projeto de lei complementar para perseguir o centro da meta fiscal, e com as recompras do Tesouro. Ainda assim, Citi, BCA Research e J.P. Morgan rebaixaram recomendações para ativos brasileiros.
O BTG Pactual lembrou que, após a eleição de 2022, o índice imobiliário da B3 caiu 13,11% em um mês e levou cerca de um ano para se recuperar. O banco espera que o juro real longo supere 8% e só recue com equipe econômica crível e sinais de disciplina fiscal. Entre as incorporadoras, destacou a Cury pelo balanço menos alavancado.
O que observar
- O anúncio do ministro da Fazenda do quarto mandato e o conteúdo do projeto fiscal prometido por Durigan.
- A reunião do Copom de 3 e 4 de novembro, com a Selic hoje em 13,75%.
- Se os juros futuros longos se mantêm acima de 15%, o que pressiona o crédito imobiliário.
- O comportamento das ações de construtoras de média e alta renda, mais sensíveis aos juros.
