Os títulos do Tesouro Direto registraram, na segunda-feira, 26 de outubro, uma das maiores disparadas de taxas da série histórica, no primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Tesouro IPCA+ 2032 saiu de IPCA + 6,72% no fechamento de sexta-feira, 23 de outubro, para IPCA + 8,10% na abertura de segunda, segundo o InfoMoney. Foi a segunda maior alta diária da série, atrás apenas da de 12 de março de 2020, no início da pandemia. Todos os títulos IPCA+ à venda passaram a pagar juro real acima de 7,6% ao ano.
Nos prefixados, o movimento foi ainda mais forte. Segundo o BPMoney, o Prefixado 2032 saltou de 12,89% para 15,78% ao ano, alta de 289 pontos-base, a maior variação diária desde o início da série e acima dos 206 pontos registrados em 12 de março de 2020. O Prefixado 2029 foi de 12,76% para 15,40%.
Perdas na marcação a mercado
Quem tinha títulos longos sentiu o impacto imediatamente no extrato. O Tesouro IPCA+ 2050, que foi de IPCA + 6,42% para IPCA + 7,64%, a maior taxa da sua série, teve queda de 23,6% no preço em relação a sexta-feira. O IPCA+ 2032 recuou 7,1%. A perda, porém, só se concretiza para quem vende antes do vencimento. Quem mantém o título até o fim recebe a rentabilidade contratada na compra.
Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos da AW Capital, o mercado já havia precificado uma mudança de governo e passou a cobrar mais para financiar o país. “A pancada principal é no juro futuro porque os investidores olham para o Brasil e não confiam”, afirmou ao InfoMoney.
Tesouro intervém e mercado devolve parte da alta
O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação programados para a semana e foi ao mercado recomprar papéis. Segundo o BPMoney, na segunda-feira foram recomprados cerca de R$ 7,1 bilhões em NTN-F (prefixados) e mais de R$ 7 bilhões em NTN-B (atrelados ao IPCA). Na manhã de 27 de outubro, o Tesouro também cancelou o leilão de LFT e anunciou uma nova recompra de NTN-B, a terceira desde a eleição.
Na terça-feira, os prefixados devolveram parte do salto. O Prefixado 2032 caiu 49 pontos-base, de 15,50% para 15,01% ao ano, e o Prefixado 2029 recuou de 15,26% para 14,79%. O IPCA+ 2032 cedeu de 7,80% para 7,64%, enquanto alguns vencimentos mais longos continuaram subindo, como o IPCA+ 2040, que foi de 7,29% para 7,41%. Ainda assim, as taxas seguem muito acima das de 23 de outubro. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ter falado ao presidente sobre a importância de enviar ao mercado um sinal de confiança e afirmou que o governo já tem medidas fiscais preparadas.
O que muda para a renda fixa ligada a imóveis
Os títulos públicos funcionam como referência para todo o mercado de renda fixa. Quando o Tesouro passa a pagar mais, os emissores privados precisam oferecer taxas maiores para disputar o mesmo dinheiro. Isso vale para os papéis ligados ao setor imobiliário:
- Os CRIs (certificados de recebíveis imobiliários) tendem a ser emitidos com taxas mais altas, o que encarece a captação de incorporadoras e loteadoras.
- As LCIs, isentas de imposto de renda para a pessoa física, passam a concorrer com títulos públicos mais rentáveis, e os bancos podem precisar elevar as taxas para captar.
- Fundos imobiliários de recebíveis com CRIs atrelados à inflação também são afetados, como mostrou a queda de 17% do RPRI11 na manhã de 26 de outubro, segundo a Suno.
Efeito sobre o crédito imobiliário
Para quem financia imóvel, o impacto não é imediato, mas é relevante. O crédito imobiliário dos bancos depende do custo de captação, que inclui poupança, LCI e emissões no mercado de capitais. Se o juro longo se mantiver alto, a tendência é de pressão sobre o custo do funding e menos espaço para redução das taxas ao comprador final. Para as construtoras, captar via CRI fica mais caro, o que pode afetar o ritmo de lançamentos que dependem de mercado de capitais.
Para o investidor, a Genial Investimentos recomendou, no cenário de reeleição, concentrar a exposição a IPCA+ em vencimentos curtos, para proteger o poder de compra sem carregar o prêmio fiscal dos prazos longos.
O que observar
- O anúncio de medidas fiscais e de nomes da equipe econômica, citado pelo ministro Dario Durigan.
- A retomada dos leilões do Tesouro, sinal de normalização do mercado.
- As taxas oferecidas em novas emissões de CRI e LCI nas próximas semanas.
- Eventuais revisões nas taxas de financiamento imobiliário pelos grandes bancos.
