O Bradesco elevou a taxa mínima do seu financiamento imobiliário de cerca de 11,7% para 15% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR). O aumento, de 3,3 pontos percentuais de uma só vez, foi comunicado aos parceiros imobiliários do banco e confirmado pela proptech MySide, que acompanha mensalmente as taxas das principais instituições. A mudança foi revelada pela Exame em 27 de outubro, dois dias depois do segundo turno da eleição presidencial, e a nova tabela passou a valer em 26 de outubro, segundo o portal TN Sul.
Paulo Padro, da MySide, afirmou à Exame que, em todos os anos de acompanhamento, a empresa nunca havia registrado um aumento dessa magnitude. Com a nova tabela, a taxa mínima do Bradesco passa a ficar acima da própria Selic, que está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro.
O que mudou em cada linha
De acordo com a tabela divulgada pelo portal Publicidade Imobiliária e reproduzida pelo TN Sul, o reajuste atingiu todas as modalidades de crédito imobiliário do banco:
- Linha principal (maioria dos clientes): TR + 15% ao ano, alta de 3,3 pontos.
- Segmento Private: TR + 13,60% ao ano, alta de 2,15 pontos.
- Imóvel comercial e compra por empresas: TR + 16,50% ao ano, alta de 2,51 pontos.
- Lote urbano: TR + 18,50% ao ano, alta de 4,51 pontos.
No comunicado aos parceiros, o banco atribuiu a revisão a movimentos recentes do mercado e aos reflexos no seu custo de captação. À Exame, o Bradesco disse que atualizou as taxas por causa do aumento dos juros praticados no mercado, que as condições finais são negociadas caso a caso e que segue valorizando o setor.
Quanto fica mais caro
A Exame simulou um financiamento de R$ 500 mil em 30 anos pelo sistema SAC, sem considerar TR, seguros obrigatórios e tarifas. A primeira parcela passa de cerca de R$ 6.020 para aproximadamente R$ 7.246. O total de juros pagos ao longo do contrato sobe de cerca de R$ 836 mil para algo em torno de R$ 1,06 milhão.
Bradesco se distancia dos concorrentes
No levantamento de outubro da MySide, atualizado em 8 de outubro, as taxas mínimas dos grandes bancos estavam concentradas entre 10,26% e 11,99% ao ano, mais TR. A Caixa tinha a menor taxa (10,26%), seguida por Banco do Brasil (11,60%), Santander (11,69%) e Itaú (11,99%). Com a nova tabela, o Bradesco fica cerca de 3 pontos acima do segundo banco mais caro.
A Exame procurou o Bradesco e os outros grandes bancos para saber se haverá novos reajustes, mas não obteve resposta até a publicação. Padro disse não descartar que outras instituições façam movimentos parecidos nos próximos meses. Para a MySide, a decisão parece defensiva e pode funcionar como uma forma de reduzir a exposição do banco a novos contratos, mas a empresa ressalta que se trata de interpretação, já que o banco não detalhou seus motivos.
Por que isso acontece agora
O crédito imobiliário vinha crescendo forte. Segundo a Abecip, os financiamentos somaram R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 23% sobre o mesmo período de 2025. A poupança, porém, perde peso como fonte de recursos: dados do Banco Central compilados pelo próprio Bradesco mostram que ela respondia por 34% do funding do setor em dezembro de 2023 e por 29% em dezembro de 2025. Quanto menos poupança, mais os bancos dependem de captação a preço de mercado. A revisão do Bradesco veio logo depois da forte alta dos juros futuros em 26 de outubro, primeiro pregão após o segundo turno, embora o banco tenha citado apenas “movimentos recentes do mercado”.
O que muda para compradores e corretores
Para quem já tem contrato assinado, nada muda: a taxa é fixada na assinatura. O impacto recai sobre propostas em análise e novas contratações. Nesse cenário, comparar bancos passa a ser obrigatório. A diferença entre a taxa da Caixa e a nova taxa do Bradesco supera 4,7 pontos percentuais, o que muda a renda exigida e o valor máximo financiável.
Para corretores, inclusive no litoral catarinense, onde boa parte das vendas de médio e alto padrão depende de financiamento bancário, a recomendação é revisar simulações feitas antes de 26 de outubro e confirmar com o banco a taxa vigente antes de fechar a proposta.
O que observar
- A reação de Caixa, Itaú, Santander e Banco do Brasil nas próximas semanas.
- A decisão do Copom em 3 e 4 de novembro, que deve orientar novas revisões de taxas.
- A evolução dos juros futuros, que balizam o custo de captação dos bancos.
- Eventuais ajustes do Bradesco caso o mercado se acalme.
