Os juros futuros tiveram uma das maiores altas dos últimos anos em 26 de outubro, primeiro pregão depois da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a Reuters, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2031 fechou em 15,185%, alta de 254 pontos-base em relação aos 12,642% da sexta-feira, 23 de outubro. O DI para janeiro de 2028 subiu 194 pontos-base, de 12,859% para 14,80%.
A mudança alterou por completo as apostas para a Selic. Na sexta-feira, a curva de juros indicava quase 100% de chance de corte de 0,25 ponto na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 3 e 4 de novembro. Na manhã de segunda-feira, chegou a precificar alta de 0,25 ponto. No fim da tarde, passou a indicar manutenção da taxa em 13,75% em novembro, alta de 0,25 ponto em dezembro e de 0,50 ponto em janeiro.
Um dia de forte turbulência
O movimento dos juros veio acompanhado de quedas fortes na bolsa e alta do dólar, que chegou a passar de R$ 5,50 durante o dia. O DI para janeiro de 2031 atingiu a máxima de 15,940% às 11h02, alta de 330 pontos-base. Para comparação, em 2 de outubro, antes do primeiro turno, esse mesmo contrato estava em 13,99%.
O Tesouro Nacional reagiu cancelando os leilões de títulos atrelados à inflação, previstos para terça-feira, e de prefixados, previstos para quinta-feira. Manteve apenas o leilão de títulos pós-fixados (LFT) e fez recompras de cerca de R$ 7,1 bilhões em prefixados e R$ 7,7 bilhões em títulos indexados à inflação, segundo a Reuters.
Lais Costa, analista da Empiricus Research, disse à agência que o mercado está “muito disfuncional”. Ela ligou a nova precificação da Selic ao dólar mais alto, que pressiona a inflação, e à piora das expectativas.
O que o Focus dizia antes da eleição
O contraste com as projeções da semana anterior é grande. O boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 26 de outubro, com respostas coletadas até 23 de outubro, antes do segundo turno, mantinha a Selic em 13,25% no fim de 2026. Isso indicava cortes de 0,25 ponto em novembro e em dezembro. Para o fim de 2027, a projeção caiu de 12% para 11,75%; para 2028, de 10,50% para 10%.
A inflação também dava sinais de alívio. O IPCA-15 de outubro, divulgado em 23 de outubro, subiu 0,32%, abaixo dos 0,43% esperados por analistas consultados pela Reuters. O Focus projetava IPCA de 5,19% em 2026, acima do teto de 4,5% da meta, e dólar a R$ 5,05 no fim do ano.
Por que isso importa para o crédito imobiliário
Os juros futuros de longo prazo são a principal referência para o custo de captação dos bancos. Quando sobem, o dinheiro que financia imóveis fica mais caro, sobretudo a parcela do crédito que não vem da poupança. Depois do primeiro turno, em 5 de outubro, o movimento havia sido o oposto, com forte queda das taxas. A reversão de 26 de outubro levou os contratos longos para níveis acima dos registrados antes do primeiro turno.
Para quem está comprando, a consequência prática é que as taxas oferecidas pelos bancos podem subir antes mesmo de qualquer decisão do Copom. Já há sinal disso: em 27 de outubro, a Exame noticiou que o Bradesco elevou sua taxa mínima de financiamento imobiliário para 15% ao ano mais TR.
Leituras diferentes no setor
A disparada foi associada por analistas às incertezas sobre o ajuste fiscal no novo mandato. No setor imobiliário, as reações variaram. O presidente da CBIC, Eduardo Aroeira, afirmou que os empresários da construção recebem o resultado com tranquilidade, e a entidade entregou ao governo uma agenda que inclui equilíbrio fiscal e redução dos juros. Já o economista Fábio Moraes, da E2+, classificou o patamar atual de juros como punitivo e restritivo e cobrou sinais de ajuste nas contas públicas. A palavra final sobre a Selic cabe ao Copom, que vinha sinalizando cautela: na ata de setembro, o comitê afirmou que o cenário exige serenidade e cautela na condução da política monetária.
O que observar
- A decisão do Copom em 4 de novembro e o tom do comunicado.
- Se a volatilidade dos juros futuros diminui ao longo da semana.
- A reação dos bancos nas tabelas de financiamento imobiliário.
- Os primeiros sinais do governo eleito sobre a política fiscal para 2027.
