A poupança do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), principal fonte de recursos para o financiamento imobiliário, teve saque líquido de R$ 6,19 bilhões em setembro de 2026, segundo dados do Banco Central compilados pelo portal Portas e divulgados em 9 de outubro. Foi o quarto mês consecutivo de saldo negativo, sequência iniciada em junho. A saída, porém, foi bem menor do que a de agosto, quando os resgates superaram os depósitos em R$ 9,51 bilhões.
Em setembro, os depósitos somaram R$ 293,15 bilhões e as retiradas, R$ 299,33 bilhões. Os dois movimentos caíram em relação a agosto: os depósitos recuaram 5,3% e os saques, 6,2%.
Melhor que um ano antes
Na comparação anual, o resultado também foi menos negativo. Em setembro de 2025, a perda líquida havia sido de R$ 11,72 bilhões. A redução de 47,2% nos saques líquidos equivale a R$ 5,53 bilhões a menos saindo da caderneta.
O saldo total da poupança do SBPE terminou setembro em R$ 755,80 bilhões, queda de 0,18% em relação aos R$ 757,19 bilhões de agosto. O rendimento creditado aos poupadores no mês foi de R$ 4,79 bilhões, ligeiramente acima dos R$ 4,76 bilhões de agosto. É esse rendimento que impede uma queda maior do saldo mesmo com mais saques que depósitos.
O balanço do ano
De janeiro a setembro, os depósitos somaram R$ 2,775 trilhões e as retiradas, R$ 2,828 trilhões. A saída líquida acumulada é de R$ 53,22 bilhões, 11,4% menor que os R$ 60,06 bilhões do mesmo período de 2025. O comportamento ao longo do ano foi desigual:
- Primeiro trimestre: saída de R$ 31,96 bilhões, com janeiro como pior mês (R$ 18,81 bilhões).
- Abril e maio: entrada líquida de R$ 2,80 bilhões.
- Junho a setembro: saída de R$ 24,05 bilhões.
Crédito segue aquecido
O sangramento da poupança ainda não freou o crédito. Segundo a Abecip, os financiamentos imobiliários com recursos da caderneta somaram R$ 132,5 bilhões de janeiro a agosto de 2026, alta de 37,5% sobre o mesmo período do ano anterior. Só em agosto foram R$ 16,97 bilhões, alta de 46,6% em 12 meses. A associação elevou de 15% para 18% a previsão de crescimento das concessões com recursos do SBPE em 2026, para R$ 185 bilhões.
Esse desempenho só é possível porque os bancos complementam a poupança com outras fontes, como Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e recursos próprios. O problema é que esse dinheiro custa mais, e o custo tende a chegar ao tomador quando a Selic está alta, como agora, em 13,75% ao ano.
O debate sobre o novo modelo
A perda de recursos da poupança é um dos pontos centrais da discussão sobre o novo modelo de crédito imobiliário, anunciado pelo Banco Central no fim de 2025 e com vigência integral prevista para janeiro de 2027. Pelas novas regras, 80% dos recursos devem ir para operações do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), com teto de juros de 12% ao ano, e os bancos precisam buscar mais captação no mercado.
A CBIC pediu ao governo e ao Banco Central a prorrogação, por mais um ano, do período de testes do modelo e a manutenção do teto de 12%. O setor teme que, com a Selic em patamar elevado, o custo maior da captação seja repassado aos compradores.
O que muda para quem compra
Para o comprador, a desaceleração dos saques é uma boa notícia, porque reduz a pressão sobre a principal fonte de crédito com juros controlados. Ainda assim, a poupança continua encolhendo, e a oferta de financiamento depende cada vez mais de recursos mais caros. Para corretores, o momento pede atenção às condições de cada banco e agilidade na aprovação de crédito, já que as taxas podem mudar conforme o custo de captação.
O que observar
- O resultado da poupança de outubro, divulgado pelo Banco Central no início de novembro.
- Os dados da Abecip sobre os financiamentos de setembro.
- A decisão do Banco Central sobre ajustes no novo modelo do SBPE.
- A trajetória da Selic, que define a atratividade da poupança frente a outros investimentos.
