A pouco mais de duas semanas do primeiro turno, corretores e entidades do setor imobiliário na Bahia relataram um comportamento mais cauteloso por parte dos compradores. Reportagem do jornal A Tarde ouviu profissionais do mercado de Salvador, uma das capitais que mais valorizaram nos últimos anos, e encontrou um diagnóstico comum: a eleição mexe com o humor do cliente, mas não muda a base que sustenta os preços.
O que dizem os profissionais
O corretor Paulo Garcia resumiu o fenômeno: “Eleições impactam o sentimento das pessoas, mas não necessariamente os fundamentos do mercado imobiliário”. Segundo ele, o cliente que já tinha decidido comprar costuma seguir em frente, enquanto quem estava em dúvida tende a esperar o resultado.
José Alberto Vasconcelos, segundo vice-presidente e diretor do Creci-BA, observou que a oferta de imóveis continua no mesmo ritmo, mas a procura diminui em períodos eleitorais. Na prática, isso significa mais imóveis disponíveis para menos compradores ativos, o que tende a favorecer a negociação.
A corretora Gabriela Maurus foi além e afirmou que “não existe correlação consistente entre ano eleitoral e queda no preço de imóveis”.
Os números por trás da percepção
A reportagem cita a pesquisa da Loft com a Offerwise, divulgada em abril, segundo a qual 35% dos brasileiros pretendiam antecipar ou adiar uma decisão de compra ou aluguel por causa das eleições. É um grupo grande, mas que inclui tanto quem pretende esperar quanto quem decidiu antecipar o negócio.
Ao mesmo tempo, os preços seguem em alta. O Índice FipeZAP registrou valorização de 6,52% nos preços residenciais do país em 2025. Em Salvador, a alta foi de 16,25% no mesmo período, uma das maiores entre as capitais monitoradas.
Por que os preços não caem
Imóveis têm uma característica diferente de ações ou moedas: os proprietários raramente aceitam vender abaixo do valor que consideram justo apenas por causa de um momento de incerteza. Em vez de baixar o preço, muitos preferem esperar. Por isso, em anos eleitorais é mais comum ver o número de negócios diminuir do que os preços caírem.
Outros fatores também sustentam os valores:
- Custo de construção elevado, que limita a oferta de imóveis novos a preços baixos.
- Demanda habitacional reprimida em grande parte das capitais.
- Mercado de trabalho com desemprego baixo e renda em recuperação.
- Busca por imóveis como proteção de patrimônio em momentos de incerteza.
Onde está a oportunidade
Para quem está preparado para comprar, o período pode ser favorável. Com menos concorrência entre compradores, há mais margem para negociar descontos, prazo de entrega, parcelamento da entrada ou inclusão de itens como vagas extras e móveis planejados.
Para o investidor, a lógica é semelhante: comprar quando a maioria está esperando costuma permitir condições melhores do que comprar depois que a demanda volta.
O papel do corretor
Em momentos de dúvida, o cliente valoriza informação clara. Explicar o histórico dos preços na região, mostrar dados de valorização e simular cenários de financiamento ajuda o comprador a tomar uma decisão consciente, sem depender do humor político do momento.
O que são os fundamentos do mercado
Quando os profissionais falam em fundamentos, se referem aos fatores que sustentam a demanda e os preços no longo prazo. Os principais são o crescimento da população e da formação de novas famílias, a renda e o emprego, o custo de construção, a disponibilidade de terrenos e as condições de crédito. Nenhum deles muda de forma relevante entre um turno e outro da eleição.
Salvador ilustra bem essa diferença. A valorização acima da média nos últimos anos foi puxada por fatores como a chegada de novos moradores, a melhora da infraestrutura em alguns bairros e a oferta limitada de imóveis de qualidade em áreas valorizadas. São forças que continuam atuando, qualquer que seja o resultado da eleição.
O que observar
- A procura nas semanas após o segundo turno, quando parte da demanda represada tende a voltar.
- A evolução dos preços em Salvador e no Nordeste, que vinham liderando a valorização.
- O comportamento das taxas de financiamento depois da eleição.
