A vontade do brasileiro de comprar um imóvel nunca foi tão alta desde o início da série histórica. Segundo pesquisa da Brain Inteligência Estratégica divulgada em agosto, 52% dos entrevistados disseram ter intenção de comprar um imóvel no segundo trimestre de 2026. É o maior percentual registrado desde 2019, quando o levantamento começou, e fica bem acima da média histórica, de 43%.
Como a pesquisa é feita
O estudo ouve cerca de 1.200 pessoas em todo o país a cada trimestre e acompanha a intenção de compra, a finalidade (moradia ou investimento), a forma de pagamento pretendida e o tipo de imóvel desejado. Por ter uma série longa, permite comparar o momento atual com períodos de juros baixos, como 2020 e 2021, e de juros altos, como 2023 e 2025.
Por que o número surpreende
O recorde acontece em um cenário que, em teoria, deveria desestimular a compra:
- A Selic ainda estava em 14% ao ano em agosto, depois de passar mais de um ano em 15%.
- As taxas do financiamento imobiliário nos grandes bancos seguiam acima de 11% ao ano mais TR.
- O país estava a pouco mais de um mês do primeiro turno de uma eleição presidencial polarizada.
Para Marcelo Gonçalves, da Brain, a explicação passa por uma combinação de fatores: o mercado de trabalho aquecido, com desemprego nas mínimas históricas, a expectativa de queda dos juros nos próximos anos e a percepção de que o imóvel continua sendo a forma mais segura de proteger o patrimônio.
O imóvel como reserva de valor
A pesquisa reforça uma característica cultural do brasileiro: a preferência pelo tijolo. Em momentos de incerteza econômica ou política, muitas famílias preferem transformar parte da poupança em um ativo físico, que não pode ser bloqueado, que gera renda de aluguel e que historicamente acompanha a inflação no longo prazo.
Esse comportamento ajuda a explicar por que as vendas de imóveis novos continuaram crescendo em 2026, mesmo com o crédito caro. Segundo a CBIC, foram 226,5 mil unidades vendidas no primeiro semestre, alta de 5,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Intenção não é compra
É importante separar intenção de compra de compra efetiva. Muitas pessoas que desejam comprar esbarram na falta de entrada, na renda insuficiente para aprovar o financiamento ou no valor da parcela. Por isso, os especialistas olham o indicador como um termômetro de demanda reprimida: há gente querendo comprar, esperando o momento em que o crédito fique mais acessível.
Quando os juros começarem a cair de forma mais consistente, essa demanda tende a se transformar em vendas. É por isso que incorporadoras e corretores acompanham de perto as decisões do Copom e as projeções do mercado para a Selic.
O que isso significa para quem vende
- Há procura, mas o comprador está mais seletivo e sensível ao preço.
- Imóveis bem localizados e com preço alinhado ao mercado tendem a vender mais rápido.
- Condições de pagamento flexíveis, como entrada parcelada, ajudam a converter a intenção em negócio.
- Corretores que acompanham a jornada do cliente por mais tempo têm vantagem quando o crédito melhora.
Demanda reprimida e preço
Quando muita gente quer comprar e pouca gente consegue, o mercado acumula o que os economistas chamam de demanda reprimida. Ela funciona como uma mola: enquanto o crédito está caro, fica comprimida; quando os juros caem, ela se solta de uma vez. Foi o que se viu em 2020 e 2021, quando a Selic chegou à mínima histórica e as vendas de imóveis bateram recordes, com reflexo direto nos preços.
Por isso, parte dos especialistas avalia que quem compra antes da queda dos juros enfrenta menos concorrência e mais espaço para negociar, ainda que pague uma taxa de financiamento maior no início. Essa taxa pode ser renegociada depois, por meio da portabilidade. Já o preço pago pelo imóvel não muda.
O que observar
- A próxima edição da pesquisa, que vai mostrar o efeito do período eleitoral sobre a intenção de compra.
- A evolução da Selic e das taxas dos bancos no fim do ano.
- O volume de financiamentos com recursos da poupança e do FGTS, que indica se a intenção está virando contrato.
