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Por que tanta gente adia a compra do imóvel quando a eleição se aproxima

Estudos mostram que o investimento cai em anos eleitorais, mas especialistas lembram que as regras do mercado imobiliário são de Estado, não de governo.

A cada quatro anos, a mesma pergunta volta às conversas entre compradores, corretores e incorporadores: vale a pena fechar negócio agora ou é melhor esperar a eleição passar? Em 2026, com uma disputa presidencial polarizada e a Selic ainda em dois dígitos, a dúvida ficou mais forte. Um artigo publicado pelo portal Portas, assinado por Daniel Claudino, reuniu pesquisas acadêmicas e de mercado para explicar por que tantas pessoas preferem segurar a decisão justamente nesse período.

O que a pesquisa acadêmica diz

O ponto de partida é um estudo clássico dos economistas Brandon Julio e Youngsuk Yook, que analisou o comportamento das empresas em dezenas de países ao longo de vários ciclos eleitorais. A conclusão: em anos de eleição nacional, o investimento corporativo cai em média 4,8% em relação aos anos sem eleição. O efeito é maior quando a disputa é apertada e quando o resultado pode mudar de forma relevante as regras econômicas.

A lógica é simples. Uma decisão de investimento de longo prazo, como construir uma fábrica ou comprar um imóvel, é difícil de desfazer. Quando existe a possibilidade de mudança em impostos, crédito ou regulação nos meses seguintes, esperar um pouco para ver o cenário com mais clareza passa a ter valor. Os economistas chamam isso de opção de espera.

Os números do comprador brasileiro

As pesquisas feitas com consumidores brasileiros ao longo de 2026 apontam na mesma direção, mas com intensidade menor do que muita gente imagina:

  • Levantamento Neogrid/Opinion Box indicou que 36% dos entrevistados consideram a eleição um fator na decisão de compras de maior valor.
  • A Loft, em parceria com a Offerwise, encontrou 35% de brasileiros dispostos a antecipar ou adiar a compra ou o aluguel por causa da eleição.
  • No Grupo OLX, 25% dos potenciais compradores disseram que a eleição influencia a decisão, e 42% deles passaram a procurar imóveis mais baratos.

Ou seja, existe um grupo relevante que reage ao calendário político, mas a maioria dos compradores segue o próprio planejamento familiar, a necessidade de moradia e a capacidade de pagamento.

Estado, não governo

O argumento central do artigo é que as regras mais importantes para quem compra imóvel não mudam de um mandato para outro de forma brusca. Alienação fiduciária, Sistema Financeiro da Habitação, uso do FGTS, registro de imóveis e a Lei do Inquilinato são estruturas construídas ao longo de décadas, com participação do Congresso e do Judiciário. Nas palavras do autor, são políticas de Estado, não de governo.

Isso não significa que a eleição seja irrelevante. O próximo presidente pode influenciar o ritmo de queda dos juros, a política fiscal, o desenho do Minha Casa, Minha Vida e o papel da Caixa no crédito habitacional. Mas a base jurídica que dá segurança à compra de um imóvel tende a permanecer.

Medo e oportunidade

Há também um efeito pouco comentado: quando parte dos compradores sai do mercado à espera da eleição, quem permanece ganha poder de negociação. Vendedores que precisam fechar negócio, incorporadoras com metas de vendas e proprietários de imóveis prontos ficam mais abertos a descontos e condições especiais.

Para o investidor de longo prazo, esse momento pode ser uma janela. Para quem compra para morar, a pergunta mais importante continua sendo se a parcela cabe no orçamento com folga, independentemente de quem vencer a eleição.

Como conversar com o cliente indeciso

Na prática, o corretor costuma ouvir duas frases nesta época: “vou esperar a eleição” e “e se o preço cair depois?”. Uma boa resposta começa separando o que é incerteza real do que é ansiedade. Juros, inflação e regras de programas habitacionais podem mudar, mas costumam mudar aos poucos. Preço de imóvel em região consolidada raramente cai de forma brusca por causa do resultado das urnas.

Mostrar o histórico de preços da região, simular o financiamento com a taxa atual e com uma taxa menor e comparar o custo de esperar, como o aluguel pago nos meses de espera, ajuda o cliente a decidir com números na mão. Quem tem a parcela confortável no orçamento e encontrou o imóvel certo raramente se arrepende por não ter esperado o calendário político.

O que observar

  • A trajetória da Selic e dos juros futuros, que influenciam diretamente as taxas do financiamento.
  • As propostas dos candidatos para o Minha Casa, Minha Vida e para o crédito da Caixa.
  • O nível de estoque das incorporadoras, que indica o espaço para negociação.
  • A própria estabilidade financeira da família: emprego, reserva de emergência e comprometimento de renda.

Para o corretor, o recado é que o cliente indeciso precisa de informação, não de pressão. Explicar o que muda e o que não muda com a eleição costuma ser mais eficaz do que prometer valorização.

Fonte: Portas

// Leia antes de negociar

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